Se Guilherme tivesse perdido o seu micro-ônibus, certamente teria chegado atrasado novamente. A questão dos transportes foi muito estudada para chegar a uma decisão definitiva sobre como a população teria acesso aos veículos. Depois de alguns anos – caóticos devido ao problema sem solução – de votações, chegou-se à decisão de impossibilitar a compra de veículos particulares. Os preços de novos carros e motos se tornaram exorbitantemente caros, de forma que nem mesmo os mais ricos milionários ousavam pagar o preço. Os veículos que já estavam em circulação também foram atacados. Tiveram permissão para circular até por um ano, e depois as taxas de renovação de licença colocaram a grande maioria dos carros à venda. Com o colapso dos transportes particulares, os postos de gasolina também entraram em falência, sendo em grande parte substituídos por centrais de recarga de baterias para os aparatos eletrônicos que entravam em moda. As permissões de motorista também foram automaticamente esquecidas, já que não fazia sentido poder usar algo que não estivesse disponível ao uso.
Por isso, para se locomover de um lugar para outro, os cidadãos passaram a confiar somente no transporte público. A princípio ocorreu somente um aumento do número de veículos, mas mesmo assim, devido ao crescimento populacional, uma nova política precisou ser adotada. Dessa forma, as pessoas passaram a receber permissões para entrar e sair de casa. Os ônibus passaram a ser em grande parte expressos, deslocando-se diretamente a uma região da cidade. Assim, uma pessoa poderia comprar os passes antecipadamente pelos CI – como passaram a ser chamados os computadores integrados presentes em todos os equipamentos, roupas e acessórios – e utilizar por uma vez, um mês ou um ano. Caso houvesse necessidade de deslocar-se para outra região, era necessário comprar o passe com ao menos um dia de antecedência, ou corria o risco de ter o pedido negado por lotação.
Guilherme sentou no seu assento reservado sem olhar muito para as pessoas ao seu redor. A vida social atualmente não envolvia muitos contatos em lugares onde você não escolheu estar ali. Por exemplo, no ônibus ou no elevador – lugares que eram de passagem obrigatória para se alcançar o destino, seja ele um lugar da cidade, ou um andar no edifício –, não envolviam conversar com estranhos ou encontros aleatórios. Por isso esses lugares continham figuras caladas e olhando para o horizonte, buscando o mínimo de contato pessoal possível. A única exceção eram as pessoas que já se conheciam de outro lugar, que mantinham uma conversa constrangida tentando não ser ouvidas.
Era possível fazer novos amigos em alguns lugares como no trabalho, ou em festas, se houvesse alguém desinibido no relacionamento. Porém, o grande campeão de novos contatos, se tornou sem dúvida o Google Life. Através do novo recurso de procurar pessoas com atividades semelhantes, baseado no estilo de vida registrado em cada pequena atividade, foi possível encontrar amigos com interesses em comum, e posteriormente encontrar-se fisicamente.
O Google se tornou sem dúvida a corporação do século depois de desenvolver programas e serviços em todos os âmbitos da vida cotidiana. Comprou várias empresas menores ao longo dos anos, e se tornou absoluto no mercado. Com seu programa mais recente Google Life, passou a fazer parte do dia a dia de cada pessoa, buscando produtos de interesse (e fazendo o pedido), oportunidades de emprego, sugestões de viagens e tudo mais que se possa imaginar, além de permitir a comunicação de pessoas e gerenciamento de artefatos que já vinham de programas anteriores. Tudo isso de acordo com o padrão de vida de cada pessoa, observando o histórico dos lugares visitados, produtos comprados, etc.
Sentado em seu banco, Guilherme tentou se distrair escutando alguma música. Puxou a bolsa para cima, e tirou de dentro dela um pequeno aparelho da espessura de um lápis, porém menor do que um dedo indicador. Ele destacou uma das extremidades, que revelou ser um fone de ouvido minúsculo. Já que a orelha direita estava ocupada com o fone do celular, ele enfiou o pequeno dispositivo recém destacado no ouvido esquerdo, e apertou um botão na parte do dispositivo que permaneceu em sua mão.
Sem demora, ambos os fones passaram a tocar uma melodia de 2U, uma banda coreana-russa-alemã-turca que havia emergido com suas músicas havia dois dias. Não demoraria mais do que mais dois dias para que todos esquecessem que um dia tal banda existiu um dia. Com o avanço da comunicação, não existia mais a barreira físico-cultural dos países. Bastava que alguns músicos com interesses comuns se encontrassem – tudo facilitado pelo Google Life – e em pouco tempo já estava em broadcast na rede uma música completamente nova copiada de trechos antigos de músicas mortas. Da mesma forma que surgiam, as bandas desapareciam.
Guilherme possuía uma grande quantidade de espaço disponível no SECCA, devido ao seu trabalho que envolvia informática na essência. SECCA era a sigla para Servidor Estruturado de Compartilhamento Central de Arquivos. Foi a solução encontrada – novamente pelo Google, e seguido à risca pela Microsoft Extended logo após – para a demanda de todos que desejavam ter muito espaço, onipresente, compartilhado e de baixo custo. Dessa forma, todos os dados computáveis estavam armazenados em um Servidor (ou uma rede secreta deles) que podia ser acessado de qualquer lugar civilizado do planeta – que correspondia já a 85% da superfície terrestre.
Obviamente, o baixo custo do espaço remoto era uma vantagem, já que HD’s passaram a ficar mais caros com o desuso. Além disso, adquirir espaço no SECCA implicava também em aceitar divulgar suas estatísticas de uso às empresas financiadoras, melhorando assim a eficiência das buscas personalizadas e ativando a Economia do país, através de um mercado de informações altamente desejado pelas empresas. Era do SECCA que estavam vindo as músicas que Guilherme ouvia no ônibus.
Porém, durante a viagem, ocorreu algo que atrapalhou percurso do ônibus, embora não comprometesse a sua chegada ao destino a tempo.
Sem muito aviso, uma senhora que estava sentada em um assento apenas a distancia de duas cadeiras de Guilherme soltou um leve gemido, colocou a mão no peito e girando um pouco o corpo, desabou com os olhos já fechados no corredor do micro-ônibus. Alguns mais jovens se assustaram e se levantaram ao auxílio da senhora – um resquício da humanidade que restava na sociedade –, mas a grande maioria com mais de 50 anos se limitou a olhar e observar a cena com paciência.
O micro-ônibus diminuiu e parou mais à frente, afastando-se um pouco da pista central. Em menos de cinco minutos, foi ouvida uma sirene distante, que se aproximou rapidamente e finalmente parou próxima ao ônibus. Instantes depois, subiram dois senhores vestindo uniformes vermelho e bege, e examinaram rapidamente a senhora. Em segundos, possuíam o diagnóstico: morte súbita aleatória. Diante do questionamento de alguns, um deles – o mais jovem – explicou rapidamente a história da senhora, que já possuía 163 anos, trabalhava como psicóloga para problemas cibernéticos – a segunda profissão médica mais abundante – e que mais cedo ou mais tarde esse fato aconteceria.
Com os avanços da medicina aliada aos avanços da computação e da eletrônica, a vida das pessoas foi prolongada assustadoramente. Por isso foi criado um mecanismo de segurança muito simples e eficaz. A princípio, as pessoas substituíam seus órgãos em falência por órgãos de outras pessoas que faleceram por certas mortes especiais. Porém, com o aumento massivo da expectativa de vida, os órgãos passaram a ser muito velhos para serem transplantados. Por isso, devido à demanda, algumas corporações desenvolveram órgãos artificiais semi-orgânicos, que substituíam com perfeição os órgãos velhos.
Assim, pouco a pouco, de acordo com a idade, as pessoas passaram a trocar seus órgãos que começavam a apresentar sinais de deficiência pelos incríveis órgãos artificiais. O grande problema era que os órgãos artificiais não envelheciam como os outros, podendo funcionar por tempo indeterminado – em casos extremos de falta de alimentação regular para alimentar com energia processada os órgãos artificiais, era recomendada uma dose de recarga externa nas centrais de recarga de baterias –, pois mesmo em pequenas falhas, os outros órgãos artificiais espalhados pelo corpo enviavam ajuda por nano-robôs viajando na corrente sanguínea que restauravam a situação regular. Dessa forma, as pessoas passaram a viver por tempo indeterminado também.
Diante desse problema, as corporações fabricantes de órgãos artificiais passaram a fabricar seus produtos com certo nível de falha forçada aleatória. Essa falha tendia a ser mais freqüente de acordo com a idade do portador do órgão. Eles conseguiram desta forma controlar as mortes das pessoas sem se preocupar muito com isso, pois os órgãos artificiais podiam falhar a qualquer momento, mas os outros órgãos enviariam ajuda. Porém se todos os órgãos falhassem ao mesmo tempo, nenhum poderia enviar ajuda para o outro, e a pessoa morreria devido à falência generalizada dos órgãos. E a probabilidade disso acontecer simultaneamente crescia à proporção da idade avançada do portador do órgão. Esse foi o destino da senhora de 163 anos.
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