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Jul/09
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A história não-contada: Como o iPhone revolucionou a indústria de telefonia

iPhone visto com um dos engenheiros

iPhone visto com um dos engenheiros

Para a Cingular, as ambições da Apple eram excitantes e aterrorizantes. Um relacionamento saudável com o criador do iPod poderia trazer sex appeal para a marca da empresa. E algumas operadoras certamente assinariam com Jobs se a Cingular desistisse – Jobs disse abertamente que venderia sua idéia a qualquer um que o escutasse. Mas nenhuma operadora jamais deu tanto poder e flexibilidade a ninguém, como Steve Jobs queria, e Sigman sabia que teria problemas em convencer seus colegas executivos e membros do conselho a aprovar um acordo com o que Jobs tinha proposto.

Sigman estava certo. As negociações se desenrolariam por mais de um ano, com Sigman e sua equipe se perguntando repetidamente se estavam perdendo muito terreno. A um certo ponto, Jobs se encontrou com alguns executivos da Verizon, que rapidamente disseram não. Fica difícil culpá-los. Por anos as operadoras cobraram consumidores e fornecedores por usar e vender seus serviços nas suas redes proprietárias. Ao dar tanto poder a Jobs, a Cingular arriscava transformar a sua extravagante – e cara – rede em um “tubo burro”, o canal qualquer de conteúdo em vez de uma fonte para este conteúdo. A equipe de Sigman fez uma aposta simples: o iPhone resultaria em um aumento do tráfego de dados que seria maior do que a receita perdida com contratos de conteúdos.

Steve Jobs não esperaria os pontos finais do acordo serem fechados. Por volta do final de 2005, oito meses antes do acordo final ser assinado, ele instruiu seus engenheiros a trabalhar com força total no projeto. E se as negociações com a Cingular desandassem, elas eram simples comparadas com os desafios de design e de engenharia que Apple encontrava. Para começar, existia a questão de qual sistema operacional usar. Desde 2002, quando a idéia de um telefone Apple nasceu, chips de celulares tinha evoluído e teoricamente poderiam suportar agora alguma versão do famoso Mac OS. Mas seria necessário enxugar radicalmente e rescrever código; um iPhone OS deveria ter apenas centenas de megabytes, quase um décimo do tamanho do Mac OS X.

Antes deles começarem a desenhar o iPhone, Jobs e seus executivos chefes precisavam decidir esse problema. Engenheiros olharam com cuidado para o Linux, que já tinha sido usado para em celulares, mas Jobs recusou-se a usar software de outra pessoa. Eles contruíram um protótipo de telefone, em um iPod, que usava a clickwheel como discador, mas conseguia somente discar para telefones – não navegava na internet. Então, no começo de 2006, enquanto os engenheiros da Apple terminavam sua revisão do porte do OS X para processadores Intel, a Apple começou o processo de reescrever o OS X novamente para o iPhone.

A discussão sobre qual sistema operacional usar era pelo menos algo que os executivos da Apple estavam acostumados. Eles estavam menos preparados para discutir as nuâncias do mundo dos telefones celulares: coisas como design da antena, radiação de rádio-frequência, e simulações de rede. Para assegurar que a minúscula antena do iPhone fizesse o trabalho de forma eficaz, a Apple gastou milhões comprando e montando salas especiais equipadas com robôs de teste. Para assegurar que o iPhone não emitisse muita radiação, a Apple construiu modelos de cabeças humanas – completas com gosma para simular a densidade do cérebro – e mediu os efeitos. Para prever a performance do iPhone em uma rede, engenheiros da Apple compraram quase uma dúzia de simuladores de rádio-frequência por milhões de dólares cada peça. Mesmo a experiência da Apple em construir telas para iPod não ajudou no design da tela do iPhone, como Jobs descobriu enquanto jogava um protótipo no seu bolso: para minimizar os arranhões, a tela touchscreen deveria ser feita de vidro, e não plástico como no iPod. Um dos trabalhadores estima que a Apple gastou quase $150 milhões para construir o iPhone.

Nesse tempo, Steve Jobs manteve o maior nível de segredo. Internamente, o projeto era conhecido como P2, abreviação de Purple 2 (o iPod phone abandonado era chamado de Purple 1). Equipes foram divididas e espalhadas ao longo do campus da Apple. Quando os executivos da Apple viajavam para a Cingular, eles se registravam como empregados da Infineon, a companhia que a Apple estava usando para fazer o transmissor do iPhone. Mesmo as equipes de hardware e software do iPhone foram mantidas separadas: engenheiros de hardware trabalhavam nos circuitos que era carregado com software falso, enquanto engenheiros de software usavam placas de circuito em caixas de madeira. Em Janeiro de 2007, quando Jobs anunciou o iPhone na Macworld, apenas 30 dos mais antigos empregados do projeto tinham visto ele.

A recepção do iPhone foi tão calorosa que era fácil ignorar suas imperfeições iniciais. O preço inicial de $599 era muito alto. O telefone rodava na rede EDGE da AT&T. Usuários não podiam fazer buscas de email ou gravar vídeos. O browser não rodava Java ou Flash.

Mas nada disso importava. O iPhone criou uma rachadura na estrutura centrada nas operadoras de telefonia móvel e liberou um caminhão de benefícios aos consumidores, desenvolvedores, fabricantes – e potencialmente às próprias operadoras. Consumidores recebem um computador de mão fácil de usar. E, como no nascimento do PC, o iPhone está criando uma onda de desenvolvimento que irá torná-lo ainda mais poderoso.

Fabricantes aproveitam o novo poder de barganha sobre as operadoras com as quais eles tiveram acordos durante décadas. Operadoras, que viram a AT&T devorar sua base de consumidores, estão lutando para encontrar um dispositivo competitivo, e eles parecem estar dispostos a abrir mão de algum poder para consegui-lo. Fabricantes terão mais poder sobre o que produzir; usuários terão mais influência sobre o que é construído.

Desenvolvedores de aplicativos estão posicionados para ganhar mais oportunidades assim que as operadoras começarem a mostrar sinais de abandonar suas estratégias de “jardim fechado” para atrair consumidores.

Pode parecer que o pesadelo das operadoras aconteceu, que o iPhone deu todos os poderes aos consumidores, desenvolvedores e fabricantes, enquanto transformou as redes sem fio em “tubos burros”. Mas ao incentivar mais inovação, redes podem se tornar mais valiosas, e não menos. Consumidores irão gastar mais tempo nos dispositivos, e portanto na rede, gerando maiores contar e gerando maiores lucros para todos. Segundo Paul Roth, presidente de marketing da AT&T, a operadora está explorando novos produtos e serviços – como banco on-line – que se aproveita das capacidades do iPhone. “Estamos pensando diferente sobre o mercado,” diz Roth. Em outras palavras o mesmo desenvolvimento que as operadoras temiam por tanto tempo, pode ser exatamente o que elas precisam. Precisou que Steve Jobs mostrasse isso a elas.

Texto originalmente escrito em Wired Magazine 16.02

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